Nasces alegre e ...

Nasces alegre e brilhante, sempre a amadurecer, Aurora. A cidade no cimo do outeiro, vacila, diante da tua beleza.
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Nasces alegre e brilhante, sempre a amadurecer, Aurora. A cidade no cimo do outeiro, vacila, diante da tua beleza.

Paredes com asas, espreitando o tempo, quem passa em baixo, na rua, olhando as condutas. Apontadas aos chãos onde se acende o lume, na lareira aberta, pedindo que compareçam, que sejam cidadãos.

O vestuário do horizonte nunca é o mesmo, quando, diariamente olhamos para ele, para nos causar motivação no início dos dias. Na despedida dos mesmos, dando a força necessária para continuarmos a ambicionar um futuro melhor. A imagem sem cor, sem força, para contrapor a história do rio, pode ser renovada. Não bastam as fotografias e as palavras, a história também se representa, com as réplicas dos barcos d' água, com as estruturas, abandonadas, de armazenamento, de acondicionamento, voltarem a ganhar ânimo. Seria interessante devolver visualmente os ofícios do passado, relacionados com o rio, o transporte mercantil, a pesca, as mulheres que lavavam a roupa no rio. Outras, ligadas pela saudade, pela liberdade das águas do rio permitirem a navegação.
Um conjunto de limites exteriores, que lhe conferem um feitio, uma configuração, ou aparência, são a disposição e organização da cidade. Reproduções, poemas bordados nas paredes, janelas abertas ao pensamento, às opiniões, tudo o que a cidade devia permitir. A luz contracenando com as sombras num palco aberto a todas as pessoas, integrado na comunidade, orientado aos ideiais de todos, e não de alguns.

As pedras rechonchudas da rua são uma parte do tempo em que as pessoas se serviam do rio no quotidiano. A rua foi uma consequência do uso dessa via fluvial, que levava e trazia forasteiros, mercadorias, conflitos militares, reis e rainhas. Actualmente traz imagens do passado dinâmico, da história a subir e a descer, uma iconografia a céu aberto.

A tarde vai caindo, os últimos raios de sol despedem-se da aldeia do Pego, contagiada pelo torpor do rio. No cimo do outeiro a cidade encarregada de vigiar o território não prega olho, numa ronda permanente, garantindo a todos que espreitem com atenção os panoramas representados na tela do horizonte.
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A cidade está grisalha, o semblante cheio de irregularidades não lhe retira a beleza, naturalmente, o avanço da idade não poupa esta senhora. Alicerçada no cimo do outeiro, onde, as suas artérias, notáveis, num rosto afeiçoado ao rio, ao horizonte, desgastam-se com a passagem do tempo. Imaginar a cidade no futuro é possível, há quem o faça, escrevendo, aplicando-a na escultura. Brevemente, a cidade de Abrantes, mostrará o futuro das cidades representados em objectos de relevo. O amanhã aqui tão perto, onde há limite para continuar a acreditar que o passado também é futuro, no presente.

Paredes que suportam a carga do tempo, são heroínas na identidade da cidade, não pertencem a nenhum conjunto construído segundo uma determinada orientação. O decorrer dos anos não conseguiu persuadir estas obras de alvenaria, mantêm-se fiéis à história edificada, à herança, transmitida pelos abrantinos.

O sentimento de indiferença da rua em relação às pessoas é visível no espelho, calou-as, passou-lhes um lápis azul por cima. Incapaz de se relacionar, prefere olhar-se no espelho acompanhando a passagem do tempo insolentemente.

O sol é breve a escalar as paredes, nas casas velhas situadas na essência da cidade. Algumas partes não têm o previlégio de aquecerem a face, são frias, como o resto do conjunto que constituem o princípio. Estão vazias, e cheias de memórias, são páginas de histórias de quem lá passou, as aqueceu com sentimentos. O sol continuará a espreitar, audicioso ou cobarde, consoante as estações. As pessoas morrem, a cidade parte com elas.
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